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Steven Soderbergh já passou pelos gêneros mais variados e, em todos eles, há uma atração por pessoas muito capazes no que elas fazem.
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Steven Soderbergh já fez drama, comédia, ficção científica, suspense e terror. “Onze Homens e um Segredo”, “Erin Brockovich”, “Magic Mike”, “Contágio”, “Kimi” etc.. Diferente de um diretor “pau para toda obra” – isto é, alguém que é contratado pelos estúdios para dirigir produções nada pessoais –, Soderbergh tem a qualidade de imbuir qualquer gênero ou premissa com o seu estilo particular.

Não me refiro a características estéticas, apesar dos numerosos pontos de convergências, mas ao tema que parece predominante em sua filmografia: Soderbergh sente tesão por eficiência. O clímax da franquia “Onze Homens”, afinal, é quando os personagens explicam como um roubo audacioso foi executado tão habilmente.

Em “Erin Brokovich”, uma das cenas utilizadas para convencer a Academia de que Julia Roberts merecia o Oscar envolvia a protagonista recitando todos os nomes e telefones dos envolvidos em um processo – tudo de memória. Feito quase uma década antes da pandemia, “Contágio” transforma em heróis os cientistas que arriscam as suas vidas pela cura de um vírus.

Dois anos atrás, Michael Fassbender viveu um matador de aluguel que comete uma série de erros em “O Assassino”, de David Fincher. Já em “Código Preto”, novo filme de Soderbergh, o mesmo ator é um agente secreto com um talento extraordinário para descobrir quando alguém está mentindo. E que deliciosa pornografia de eficiência!

Logo no início, George Woodehouse (Fassbender) prepara um jantar de maneira meticulosa, cortando o dente de alho bem fininho e com pleno domínio da técnica. Depois de sujar a camisa branca com uma gotícula de molho, ele troca de roupa. Trata-se de um homem perfeccionista, muito atento aos detalhes – e, acima de tudo, eficiente.

Os convidados são colegas do trabalho, dois agentes, uma analista de dados e a psicóloga que trata da saúde mental dos espiões. A esposa de George, Kathryn (Cate Blanchett), trabalha na mesma organização e também está presente. O pretexto do jantar é, supostamente, um encontro amigável – mas George quer saber qual deles está vazando informações da agência.

Assim, “Código Preto” vira uma espécie de “whodunit”, mas todos os suspeitos são inteligentíssimos e atraentes – além de Fassbender e Blanchett, também estão no elenco Naomie Harris, da franquia “007”; Regé-Jean Page, galã de “Bridgerton”; Marisa Abela, da série britânica “COBRA”; e Tom Burke, o Praetorian Jack de “Furiosa”.

Em geral, espiões são retratados como seres sem emoções ou laços pessoais. Não é o caso de “Código Preto”. George seria considerado um macho “sigma”, frio e calculista, se não fosse a devoção total à esposa. O maior conflito do filme não é nem a caçada ao informante, mas a possibilidade de que Kathryn esteja mentindo e levando uma vida dupla.

“Código Preto” tem uma fotografia quente, com luzes difusas, que ofuscam a visão – pode não ser muito agradável para quem têm astigmatismo –, como se Soderbergh estivesse filmando um romance ambientado no Natal. Do ponto de vista de George, é muito mais do que trabalho, é mesmo um romance. E como não amar quando os personagens são tão espertos e capazes?

Além de transparecer um encantamento pela eficiência, Soderbergh é também, ele próprio, eficiente. No começo de abril, um outro filme seu estreia nos cinemas. Com uma linguagem completamente diferente, “Presença” é um terror de casa assombrada – mas filmado pela perspectiva do fantasma.

Por “terror”, não quero dizer que “Presença” é de assustar. Na obra, os vivos são ameaças muito maiores do que o sobrenatural. Há uma melancolia marcante numa família que não se comunica, em que a adolescente acaba de perder uma amiga para uma aparente overdose. Ao perceber que há uma presença na casa, ela tem esperança de que seja a amiga morta.

Dessa forma, “Presença” lembra mais “Lake Mungo” do que “Invocação do Mal”. Tem a ver com luto, não com susto. Com certeza, não é um “terror de shopping” e pode frustrar quem estiver com expectativas equivocadas. É um filme simples, rodado em uma única locação e com um grupo pequeno de atores – mas muito eficiente.

Em “Presença”, a simplicidade do conceito não atrapalha em nada as emoções contidas ali. Desde 2020, Soderbergh dirigiu uma cerimônia do Oscar, lançou sete filmes (incluindo “Código Preto” e “Presença”) e uma minissérie. Ele produz como se fosse uma máquina, dominando todos os gêneros – mas assim como George Woodehouse, o Homem de Lata sempre teve um coração.

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