A segunda temporada de “Ruptura” foi cansativa, mas o episódio final deu uma boa revigorada no meu interesse. Cansativa porque, ao longo de vários episódios, a série colocou os dramas pessoais dos personagens de lado para tratar da Lumon – inclusive, adicionando mais elementos bizarros para tornar tudo ainda mais “intrigante”.
Estou me lixando para a Lumon – saber qual é a história da empresa, o que de fato fabricam, tudo isto é secundário ou até terciário em uma série como “Ruptura”. Se importar mais com o funcionamento da organização do que com aqueles que são afetados por ela é como dar um banho no bebê, ficar com a água suja e jogar o bebê fora.
Acredito que muitas pessoas lidam com filmes e séries como se fossem apenas historinhas. Mais vale saber o que acontece do que se deixar envolver pelas emoções ou reflexões que essas obras nos causam. Muita gente se contentaria lendo uma sinopse completa – é mais fácil, mais rápido, mais prático. Pronto para o consumo.
Esta visão utilitarista da arte, como um produto que é descartado assim que cumpre a sua “função”, somada à ideia de que todo e qualquer detalhe sobre a narrativa constitui um “spoiler”, diminui a arte como um todo e prejudica a nossa capacidade cognitiva de encarar o mundo como algo além de suas interpretações mais simplórias.
Não importa quem matou Laura Palmer, mas o que a morte dela causa na cidade de “Twin Peaks”. Não importa o que está por trás da ilha de “Lost”, mas como aqueles desconhecidos se organizam para lidar com uma ameaça externa. E não importa o que a Lumon produz, mas como os funcionários respondem à autoridade. Na arte, o mistério é sempre um veículo – nunca o destino final.
“Ruptura” trata de autoritarismo. A Lumon é uma empresa que exige uma dedicação total, quase religiosa ou típica de uma seita. Os funcionários que passam pelo processo de ruptura não conhecem outra vida. Toda a existência deles é o trabalho. São como crianças, que nunca viram nada diferente e, portanto, mais fáceis de manipular.
Para aqueles que não sabem o que há além das paredes do escritório, até um buffet de ovos é um acontecimento. Não há motivo para se rebelar ou exigir algo melhor. Em outras palavras, para quem nunca teve plano de saúde ou FGTS, basta uma cervejinha na geladeira da firma. Talvez, até um espaço instagramável.
Quando Hely R. chega ao setor, ela pode não ter lembrança alguma de quem ela é do lado de fora, mas ela sente que tem algo de errado naquelas condições. É instantâneo. Ela tenta escapar de todas as formas – mas é ela mesma quem a mantém presa. E apesar disto, de estar ali à força, conexões são formadas. Porque são todos humanos.
No último episódio, mencionam que a missão de Kier era acabar com a dor. Para tal, submeteram Gemma a todo tipo de experiência dolorosa. Como um teste final, ela desmonta o berço que teria sido de seu bebê, completamente anestesiada. Ao ver Mark, porém, ela contraria o condicionamento e toma sua mão – mesmo sem saber quem ele é, porque ela sentiu que tinha de fazê-lo.
O que os bodes significam, por que há uma fanfarra quando Mark termina a sua tarefa, nada disso me importa. De maneira geral, sem me ater a detalhes ou maiores explicações, acho que todo o lance da Lumon é este: para tornar as pessoas mais complacentes, criaram um sistema para propagar a filosofia de que os sentimentos não importam. É uma doutrinação.
O Mark que achava que a esposa tinha morrido decidiu passar pela cirurgia porque queria parar de sentir dor – mas foi justamente a falta da dor que fez com que o Mark de dentro aceitasse tarefas sem sentido, sem questionar. Cobel, Milchick, todos falavam de maneira fria e protocolar, porque a empresa depende da desumanização destas pessoas. São mais eficientes assim.
Quando Cobel, afinal, decide ajudar Mark, ela diz que é por se importar com ele. Esta é a solução do verdadeiro mistério. O que “Ruptura” nos fala é que não podemos aceitar imposições e que não devemos anular os nossos próprios sentimentos em nome de uma “missão maior”.
O autoritarismo exige uma abdicação total de nós mesmos como indivíduos e há muitas estratégias para conquistá-la. Uma delas é fazer com que todos acreditem que a arte é apenas uma distração, um passatempo bobo. Não há nada para se ver aqui, todos de volta ao trabalho!
O final de “Ruptura” é exatamente como o de “Os Incompreendidos”. Perdoem o “spoiler” de um filme de 1959, mas na estreia de François Truffaut na direção, Antoine Doinel é um garoto pobre, com pais severos. Após uma série de traquinagens, ele vai parar em um reformatório.
Na última cena, a imagem é congelada na expressão do menino, após o ver o mar pela primeira vez, depois que consegue fugir da instituição. Há alegria e apreensão em seu olhar. Alegria pela nova liberdade e apreensão por não poder voltar para casa. O mar é imenso, mas é também um ponto final. Não há mais para onde correr.
A imagem congelada em Hely R. e Mark S. revela o alívio de não seguir adiante com um sacrifício que teria sido insuportável e a alegria da aceitação do amor, da individualidade – mas, assim como Antoine, eles terão de lutar para sobreviver. Para quem vê a arte como uma simples série de atos, a segunda temporada acabou com os dois correndo de mãos dadas. Só.