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Cabeças são decepadas, corpos explodem em uma chuva extravagante de sangue. Basta dar corda no brinquedo e ver o que acontece.
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Pode não parecer, mas “O Macaco” é o filme mais pessoal de Osgood Perkins. Filho da fotógrafa Berry Berenson e do ator Anthony Perkins (eternizado no clássico “Psicose”), o diretor de “Longlegs – Vínculo Mortal” deve ter uma relação particular com a morte. Seu pai, afinal, morreu em decorrência da AIDS, em 1992. E sua mãe estava em um dos aviões sequestrados no atentado de 11 de setembro, em 2001.

Perkins perdeu o pai famoso sem saber de sua vida privada – e para uma doença avassaladora, tratada pelos conservadores como um castigo divino. Que outros segredos o pai pode ter levado ao túmulo? E, quase uma década depois, como assimilar uma morte tão aleatória e chocante como a de sua mãe? Fazendo filmes de terror, é claro.

Até então, obras mais sisudas como “Maria e João: O Conto das Bruxas” e “A Enviada do Mal” causaram algum burburinho pela atmosfera sombria, mas só. Perkins estava surfando na onda do “terror elevado” – mas nunca “elevado” o suficiente para se juntar a figuras mais bem-sucedidas como Ari Aster ou Robert Eggers.

Em exibição nos cinemas, “O Macaco” opta por uma abordagem diferente, a da comédia absurda. No filme, um macaco de brinquedo, de origem indefinida, provoca acidentes bizarros e violentíssimos, sempre de forma randômica. Cabeças são decepadas, corpos explodem em uma chuva extravagante de sangue. Basta dar corda e ver o que acontece.

A trama gira em torno dos gêmeos Hal e Bill, interpretados por Christian Convery na infância, e por Theo James na vida adulta – naquele esquema de Ruth e Raquel. Abandonados por um pai que saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou (o ator Adam Scott, em participação especial), eles são criados por uma mãe bastante cínica e mordaz, vivida por Tatiana Maslany.

Na verdade, o senso de humor do filme todo é bastante cínico e mordaz. Numa espécie de aquiescência aloprada das merdas que acontecem, uma fala é repetida com frequência e monotonia: “putz, que droga”. “O Macaco” se passa numa versão cartunesca dos Estados Unidos, em que todos os pais são ausentes e as tragédias mais malucas já não surpreendem ou comovem ninguém.

Morte ocorre, nada acontece, hambúrguer – semelhante aos tiroteios constantes da vida real. É esta desfaçatez diante do sofrimento alheio, característica marcante da cultura individualista dos americanos, que faz com que alguns continuem dando corda no brinquedo. Até atingir o alvo desejado, centenas de inocentes podem morrer, mas e daí? Tanto faz.

Já crescido, e atormentado por mortes bizarras de pessoas próximas, Hal acaba se isolando de todos, inclusive de seu próprio filho, Petey (Colin O’Brien). Para não colocá-lo em perigo, ele mal vê o garoto, que está prestes a ser adotado pelo padrasto, um coach de paternidade, interpretado por Elijah Wood.

Sem querer, Hal compreende por que o seu pai desapareceu – e, na tentativa de proteger o filho, passa adiante os seus traumas de abandono. Petey, que não sabe de nada da vida do pai, muito menos sobre o brinquedo amaldiçoado, se sente descartado. Os dois, porém, saem em uma última viagem antes da adoção. Ao final dela, Hal deve romper os laços de vez.

É esta desconexão toda, entre pais e filhos, mas também entre os dois irmãos – gêmeos deveriam, em tese, sentir uma conexão especial –, que provoca todo o caos em “O Macaco”. Caos este que, por sua vez, cria divisões ainda maiores, desenhando um círculo vicioso de ressentimento, violência e solidão.

Com mortes estrambólicas, que lembram as da franquia “Premonição”, Perkins está nos dizendo que a única forma de contornar uma dor tão sem sentido, como a que ele deve ter enfrentado, é pelo humor. E isto é mais interessante do que todos os seus filmes anteriores tentaram expressar, se é que expressaram algo.

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